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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Agrupamento Guilherme Correia de Carvalho - Livro do mês: fevereiro
Este conto esconde outra grande
história. A história de Quentin Bell e do seu irmão, os sobrinhos de Virgínia
Woolf e do jornal que faziam todos os dias para a família, quando Quentin tinha
doze ou treze anos. Um jornal que incluía ilustrações, reportagens, entrevistas
e uma enorme quantidade de artigos, quase como um verdadeiro jornal. Anos mais
tarde, Quentin descreveria as visitas da sua tia Virgínia como «uma cálida
brisa vinda de sudoeste, que nos enchia de uma espécie de espantosa energia».
Naturalmente, como era escritora, as crianças pediram-lhe uma colaboração para
o seu jornal. O resultado foi A Viúva e o
Papagaio, um conto infantil sobre o amor aos animais, que a sua tia fez
especialmente para esta ocasião. As crianças atiraram-se a esta história de
enredo surpreendente. Muito tempo mais tarde, Quentin editou o livro com
ilustrações do seu filho Julian. Hoje, o conto é um clássico e a tia de
Quentin, aquela mulher que entrava em sua casa como uma cálida brisa de
sudoeste, é considerada uma das maiores escritoras de todos os tempos, e a sua
obra continua a ser lida e admirada em todo o mundo.
Escritora
inglesa nascida a 25 de janeiro de 1882, no seio de uma família da alta
sociedade londrina,
e falecida a 28 de março de 1941. O pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. Virgínia Stephen, nome de solteira, passou a infância numa mansão londrina com os três irmãos e tratada por sete criados, convivendo com personalidades como Henry James e Thomas Hardy. Virgínia tinha 13 anos quando a mãe morreu e 22 quando chegou a vez do pai falecer. Os quatro irmãos foram então viver para Bloomsbury, um bairro londrino da classe média-alta. A irmã mais velha, Vanessa, de 25 anos, tomou conta dos restantes três.
e falecida a 28 de março de 1941. O pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. Virgínia Stephen, nome de solteira, passou a infância numa mansão londrina com os três irmãos e tratada por sete criados, convivendo com personalidades como Henry James e Thomas Hardy. Virgínia tinha 13 anos quando a mãe morreu e 22 quando chegou a vez do pai falecer. Os quatro irmãos foram então viver para Bloomsbury, um bairro londrino da classe média-alta. A irmã mais velha, Vanessa, de 25 anos, tomou conta dos restantes três.
Em
sua casa foi formado o Grupo de Bloomsbury, onde se reuniam regularmente
personalidades como os poetas T. S. Elliot e Clive Bell, o escritor E.M.
Forster entre outros artistas e intelectuais. Os quatro irmãos, entretanto,
viajaram pela Grécia e Turquia, mas pouco depois do regresso morreu Tholby, em
novembro de 1906. Virgínia sofreu a primeira de muitas grandes depressões.
Casou em 1912 com o crítico literário Leonard Woolf, que viria a ser o seu
companheiro de toda a vida.
The Voyage Out, de 1915, marca o início da sua
carreira de romancista, mas só dez anos depois, com Mrs Dalloway, considerado o seu primeiro grande romance modernista,
chegou o reconhecimento como escritora reputada. Orlando, obra de 1928, confirmou as qualidades de Virgínia Woolf.
Esta obra tem um protagonista andrógino, inspirado na sua amiga Vita
Sackville-West, com quem manteve uma longa relação íntima. Após obras como A Room of One's Own (Um Quarto Que Seja Seu), onde defende a
independência das mulheres, The Waves
(As Ondas) e The Years (Os Anos), em
1938 lançou um romance polémico, Three
Guineas (Os Três Guinéus), na
sequência da morte de um sobrinho na Guerra Civil espanhola. Neste livro, Virgínia
Woolf defende que a guerra é a expressão do instinto sexual masculino. A 28 de
março de 1941, pouco depois de ter lançado Between
the Acts, Virginia Woolf suicidou-se, atirando-se a um rio com os bolsos
cheios de pedras. Foi a segunda tentativa em poucos dias, interrompendo assim
uma carreira marcada pela obtenção de diversos prémios literários, dos quais,
contudo, só aceitou um, o Fémina, de França.
Paralelamente à atividade de escritora, Virgínia,
em conjunto com o marido, fundou e manteve uma editora, destinada a publicar
textos experimentais, textos de amigos e traduções de russo. Intitulada Hobart
Press, a editora funcionava em moldes caseiros, depois de em 1917 Leonard ter
oferecido à esposa uma pequena tipografia.
In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora,
2003-2011.
Publicado
em 1940, Bichos é o primeiro livro de
contos de Miguel Torga, um dos mais originais da literatura portuguesa no
género, de tal modo que se afirmou como o maior êxito literário do autor e como
um dos clássicos da nossa literatura.
Esta
obra é um testemunho singular da união natural entre homens e bichos - animais
com um sentir humano que se igualam ao homem na mesma luta pela sobrevivência,
e seres humanos que se transfiguram em animais. Ao mesmo tempo, é um retrato
fiel do rude viver transmontano e da fusão entre homem e terra.
O cão
Nero, o galo Tenório, o Morgado, o Ladino, o Ramiro e a Madalena reportam-nos a
uma vida em total comunhão com a natureza, com todas as alegrias e agruras que
isso implica.
Pseudónimo
de Adolfo Correia da Rocha, autor de uma produção literária vasta e variada,
largamente reconhecida. Nasceu em S. Martinho de Anta em 1907. Depois de uma
experiência de emigração no Brasil durante a adolescência, cursou Medicina em
Coimbra, onde passou a viver e onde veio a falecer em 1995. Foi poeta
presencista numa primeira fase; a sua obra abordou temas bucólicos, a angústia
da morte, a revolta, temas sociais como a justiça e a liberdade, o amor, e
deixou transparecer uma aliança íntima e permanente entre o homem e a terra.
Estreou-se com Ansiedades, destacando-se no domínio da poesia com Orfeu Rebelde, Cântico do Homem, bem como através de muitos poemas dispersos pelos
dezasseis volumes do seu Diário; na
obra de ficção distinguimos A Criação do
Mundo, Bichos, Novos Contos da Montanha, entre outros.
O Diário ocupa um lugar de grande
relevo na sua obra. Também como escritor dramático, publicou três obras
intituladas Terra Firme, Mar e O Paraíso. Recebeu o Prémio Camões
em 1989 e o prémio Vida Literária (atribuído pela Associação Portuguesa de
Escritores) em 1992.quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ
"Namora
uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros,
em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros.
Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um
cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra
uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por
ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria,
aquela que dá um grito impercetível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela
miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de
livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas,
especialmente quando ficam amarelas.
Ela é
a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a
chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está
absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de
relance, porque a maior parte das raparigas que leem não gostam de ser
interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Oferece-lhe
outra chávena de café com leite.
Diz-lhe
o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro
capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar
inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É
fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no
Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em
poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Deixa-a saber
que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença
entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a
vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não
será tua.
Ela
tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe.
Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás
das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca
será o fim do mundo.
Desilude-a.
Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax.
Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes
sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e
continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.
Porquê
assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que leem sabem que as
pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto na saga Crepúsculo.
Se
encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires
acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito,
faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas
ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque
são mesmo, durante algum tempo.
Vais
declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou,
casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais
sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu
e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas
vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela
vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo
dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats,
num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora
uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a
vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia,
horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se
queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma
rapariga que lê.
Ou,
melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."
(Texto
de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal”
de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)
Retirado de http://ojardimassombrado.blogspot.pt/2011/04/namora-uma-rapariga-que-le.html
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
POR QUE AS BIBLIOTECAS ESTÃO RESSURGINDO DAS CINZAS
Os políticos já
perceberam que é melhor para eles gastar dinheiro com bibliotecas, em vez de
museus e galerias de arte
Adoradores das bibliotecas, entre os quais eu me incluo, não precisam
estar muito cheios de tristeza e melancolia. Enquanto cortes e fechamentos
estão afetando os serviços das bibliotecas, também é verdade que a última
década assistiu a uma reinvenção da biblioteca pública no Reino Unido e em todo
o mundo. A Biblioteca de Birmingham reabriu a um custo de 186 milhões de
libras, tornando-se a maior biblioteca pública na Europa. Ela espera atrair 10
mil visitantes por dia. A magnífica biblioteca Mitchell de Glasgow, que
anteriormente detinha o recorde como a maior biblioteca de referência pública
na Europa, foi recentemente remodelada para um enorme efeito. Desde 2000, novos
edifícios de bibliotecas abriram em Bournemouth, Brighton, Canada Water,
Cardiff, Clapham, Dagenham, Glasgow, Liverpool, Newcastle, Norwich, Peckham,
Whitechapel e em outros lugares, todas registando números altíssimos de usuários.
Por que as bibliotecas estão de volta à agenda urbana? Um número
crescente de pessoas está agora envolvido em alguma forma de educação
continuada ou ensino superior, e precisam de espaço de estudo e acesso à
internet, o que muitos não conseguem encontrar em casa. A ascensão de moradores
que vivem sozinhos nos centros urbanos – em algumas capitais europeias se
aproxima a 50 % dos domicílios – significa que as bibliotecas cada vez mais
atuam como um ponto de encontro ou uma casa fora de casa, como servem para
migrantes, refugiados e até mesmo turistas. A ideia da biblioteca como “a sala de estar da cidade”
foi promulgada pela primeira vez nos projetos de bibliotecas escandinavas da
década 1970, com os arquitetos respondendo aos desejos dos usuários para
permanecerem mais tempo no ambiente, tomar um café e desfrutar de sessões de
contação de histórias, concertos à hora do almoço ou participar de leituras de
livros em grupos. Visitando a biblioteca Örnsköldsvik no norte da Suécia, perto
do Círculo Polar Ártico, notei que os usuários trouxeram seus chinelos e um
almoço embalado. Esta nova compreensão do espaço da biblioteca é formalizada,
por exemplo, na biblioteca Rem Koolhaas de Seattle, onde três dos cinco andares
são designados como Sala de Leitura, Sala de Estar e Câmara de Mistura.
O entusiasmo mundial revivido para bibliotecas – do qual Seattle é
talvez a mais ambiciosa – teve origem na América do Norte na década de 1990.
Tendo supervisionado o fracasso financeiro de museus e galerias icônicas –
construídos ostensivamente para colocar as cidades no mapa – os políticos
perceberam que recebiam mais atenção quando gastavam o dinheiro em uma
biblioteca estado-da-arte. Quando a biblioteca de Nashville foi inaugurada em
2001, inscrita em cima da porta estava a máxima: “Uma cidade com uma grande
biblioteca é uma grande cidade.” O historiador Shannon Mattern recentemente
dedicou um livro inteiro a representar a ascensão para a proeminência da nova
biblioteca urbana na vida cívica americana.
Na Europa, houve um desencanto semelhante com o “Efeito Bilbao”, em
homenagem ao sucesso singular do projeto de Frank Gehry para um museu e galeria
de arte na cidade. Por um tempo, muitos planejadores acreditavam que somente
edifícios de museu icônicos projetados por arquitetos-celebridade poderiam
resgatar cidades fracassadas do esquecimento. O amargo livro de Deyan Sudjic “O
Complexo de edifícios” discrimina a retórica exagerada e custos crescentes de
muitos desses projetos aspirantes ao redor do mundo, juntamente com a sua morte
precoce. Na Grã-Bretanha, a mais grandiosa delas, o Millennium Dome, absorveu
quase um bilhão de libras de dinheiro público – destinados a fornecer uma
vitrine permanente para a ciência e as artes – apenas para ser rapidamente
alugado como um local para eventos corporativos e pop. O Parque Olímpico e suas
instalações pode muito bem seguir o mesmo caminho.
É quase impossível para as bibliotecas públicas falhar desta maneira.
Elas são livres para usar, e, depois de um século e meio de experiência, se entremeou
no tecido da vida cotidiana. Em algumas cidades britânicas, quase metade da
população possui um cartão de biblioteca, mesmo que ele seja usado com pouca
frequência. Nós fazemos piadas sobre os bibliotecários tímidos escondidos atrás
das pilhas de livros ou na sala de estoque, mas as pessoas confiam neles como
confiam em poucos outros. Os bibliotecários podem agonizar sobre questões de
gosto, decência e da adequação dos materiais que estocam, em comparação com a
neutralidade moral do mercado comercial, mas nós os admiramos por isso. Mais
importante ainda, as bibliotecas são vistas como pertencentes a todos por
direito, comparadas à teatros com financiamento público, galerias de arte,
museus ou salas de concerto.
A adaptabilidade da biblioteca para responder às novas demandas se
reflete no design contemporâneo. O balcão de informações da biblioteca em
grande parte desapareceu. Máquinas de auto-atendimento liberam funcionários
para passar mais tempo com os usuários da biblioteca, organizar sessões de contação
de histórias, de autógrafos e círculos de leitura (havia mais de 100.000
membros de grupos de leitura em bibliotecas na Inglaterra e País de Gales na
última contagem). Foyers tendem a ser abertos com poltronas para leitura, e
serviços de empréstimo e de referência estão agora misturados. Nem todo mundo
usa a internet para pesquisar um ensaio de alto nível de Shakespeare ou
acompanhar os eventos na Síria. Outros estarão à procura de um emprego ou
verificando sites de namoro, ou podem ter caído no sono em uma réplica da
cadeira ovo brilhante de Arne Jacobsen sobre uma cópia do Jornal dos Sports. E
daí? Todos os tipos de pessoas descobrem um senso de santuário nas bibliotecas,
que não encontram em nenhum outro lugar da cidade. A biblioteca pública é o símbolo
supremo da “grande sociedade”.
“Os três documentos mais importantes que uma sociedade livre dá”, o
romancista americano EL Doctorow escreveu uma vez, “é uma certidão de
nascimento, passaporte e um cartão de biblioteca”. Os jovens estão muito em
evidência nas novas bibliotecas – uma mudança cultural inesperada e bem vinda –
sem dúvida, atraídos por uma arquitetura arejada brilhante que reflete a
cultura do design vivo que eles assimilam em suas vidas. Eles também parecem à
vontade em um lugar que os trata com um respeito não concedido em outros locais
na vida pública.
Nem todo mundo aprova o novo ethos da biblioteca, resumido como sendo
“da coleção para a conexão”. Alguns permanecem horrorizados com o avanço da
revolução tecnológica, que não só está a remodelar o mundo, mas reconfigurando
a biblioteca pública junto com ela. Se os pioneiros da biblioteca do século 19
reconheceriam estes edifícios do século 21 pode ser questionável – mas uma vez
lá dentro eles se sentem em casa. Ainda hoje, o mundo dentro da biblioteca
mudou menos do que o mundo lá fora.
Texto de Ken Worpole, publicado no The Guardian
Fonte: http://bsf.org.br/2014/01/07/biblioteca-publica-investimento-prefeito-cidade/
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
“As dificuldades justificam uma política pública de leitura, nas escolas e fora delas”
Entrevista a Teresa Calçada, coordenadora do gabinete da Rede
de Bibliotecas Escolares.
À frente da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) desde 1996,
Teresa Calçada despede-se com a certeza que o programa vai continuar, apesar
das dificuldades.
Não é exagero dizer que Teresa Calçada é a mãe da Rede de
Bibliotecas Escolares (RBE). Técnica do Instituto Português do Livro desde
1982, esteve na génese da criação da Rede de Bibliotecas Municipais e, anos
mais tarde, fez parte do grupo que pensou as bibliotecas nas escolas, acabando
por assumir a sua direção. No final de 2013, depois de 17 anos à frente da RBE,
pediu a reforma. "Não sei bem porquê", confessa. Contudo, tem a
certeza que o trabalho começado não pode voltar atrás. Para já, vai fazer voluntariado
com a sua amiga Isabel Alçada, autora e ex-ministra da Educação, na associação
Voluntários de Leitura. Vão às escolas ler com os mais pequenos.
O Ministério da Educação e Ciência já fez saber que
"está a analisar a substituição de Teresa Calçada que deixa o cargo por
aposentação".
Atualmente, há
bibliotecas em todos os estabelecimentos de ensino?
Todos os agrupamentos têm biblioteca. O sistema responde a
todos os alunos que estão na escola. O que acontece é que às vezes há escolas
do 1.º ciclo que não têm, mas têm serviço de biblioteca. Ou seja, a sede de
agrupamento obriga-se a ter um serviço de itinerância.
Não devia haver uma
biblioteca em cada escola?
Não. Desde o início do programa que está previsto nos objetivos
que todas as escolas com uma dimensão de 100 ou mais alunos tenham biblioteca.
Mas todos os alunos devem ter [acesso a] biblioteca ou serviço de biblioteca.
Hoje, isso está assegurado.
A RBE tem vindo a
sofrer cortes no seu orçamento. Houve anos em que o investimento ultrapassou os
quatro milhões de euros, mas em 2013 tinha apenas 625 mil euros. Como é este
ano?
O orçamento deste ano é equivalente ao do ano passado, que
caiu. Caiu porque o sistema não precisa do que já precisou, houve picos e
velocidade cruzeiro. Por outro lado, caiu porque houve quebra na despesa do
Orçamento do Estado com a situação financeira que se vive na Europa e em
Portugal, em particular.
Sentiu diferenças no
tratamento da RBE entre governos PS e PSD?
Muito do que representa ter hoje esta rede deve-se a todos os
ministros, desde o professor Marçal Grilo, que foi o precursor, passando por
Guilherme d’Oliveira Martins, Augusto Santos Silva, Maria de Lurdes Rodrigues,
Isabel Alçada e agora Nuno Crato. O programa mereceu sempre o respeito dos
governantes.
Esqueceu-se de alguns
ministros, o professor David Justino e Carmo Seabra, ambos do PSD.
Todos! O programa mereceu o respeito de todos, para além da
questão dos partidos. Quando fizemos 12 anos houve um fórum em Lisboa, vieram
dois mil professores bibliotecários e na primeira fila coabitavam os vários
ex-ministros da Educação, de partidos diferentes.
O programa teve a sorte de trabalhar com pessoas
interessantes que compreenderam filosófica e socialmente o papel das
bibliotecas. No nosso país, onde os níveis de literacia são baixos, os
políticos compreendem que as bibliotecas são instrumentais para as competências
leitoras.
Essas competências têm
vindo a mudar? Até que ponto a biblioteca escolar deixa de fazer sentido com as
novas tecnologias, onde tudo se pode ler e procurar num Tablet?
Hoje há multiliteracias que são mais completas. O que as
bibliotecas têm é a obrigação de ajudar à capacitação leitora. Não há
resultados a Matemática ou a qualquer outra disciplina curricular que não passe
pelas competências leitoras.
As bibliotecas têm o papel de valorizar a curiosidade e a
informação mas também treinam as competências para a leitura e para o uso das
ferramentas todas. Aos professores, cabe-nos ajudar à leitura e à
descodificação deste complexo mundo multimodal.
Qual é o maior desafio
dos professores bibliotecários?
O grande desafio é desmistificar. Ajudar os alunos a perceber
que, não é porque está na Internet que a informação é verdadeira. É preciso
ajudá-los a distinguir o verdadeiro do falso, a saber manipular a informação, a
ter um comportamento crítico.
Ninguém nasce leitor, aprendemos a ser no papel, agora temos
de aprender naquilo que é a lógica dos gadgets e isso, é para nós, um dos objetivos
das bibliotecas.
Porquê?
Porque a função da biblioteca é fazer leitores e isso é
difícil porque não se é naturalmente leitor. É cada vez mais difícil fazer
leitores porque o tempo é mais rápido e, paralelamente, o tempo da leitura é
lento. É um paradoxo, o qual somos convocados a contrariar. A leitura vindo a
complexificar-se e hoje captar a atenção, fazer modos de relacionamento —
porque estamos a falar de tecnologia e de comunicação —, tudo isso é difícil.
Temos dificuldade em comunicar com os alunos se não usarmos as tecnologias, mas
não é um complemento, e sim um instrumento, e isso é uma dificuldade para
muitos professores.
Um aluno que entra hoje
na biblioteca não vai à procura de uma enciclopédia mas de um computador?
Naturalmente, como qualquer um de nós. É um instrumento que
existe onde está tudo. Agora é preciso saber validar a informação que se
recebe.
Isso significa que os
recheios das bibliotecas mudaram? Há menos livros?
A RBE tem uma política de abate dos livros, o que é
complicado. Temos feito abate de manuais escolares, por exemplo. Se houver
muita falta de espaço, claro que tem de se fazer. Temos bibliotecas de escola
que são maravilhosas, como as dos grandes liceus e aí não há razão para tirar
os livros. Mas de há dez anos para cá que deixámos de comprar enciclopédias
para as novas bibliotecas. Hoje há uma coleção digital e se é menos rica é
porque a produção em português ainda é frágil, mas tende a aumentar.
Mas voltemos à
simulação da entrada de um aluno numa biblioteca. Para onde é que se dirige?
Claro que a sua primeira vontade é usar os gadgets. Depois
chegam aos livros quando orientados. Por exemplo, quando o professor
bibliotecário lhe mostra que demora mais tempo no computador do que no livro.
Depois, o gadget tem a perversidade da cópia e o professor bibliotecário
explica que não pode copiar, que tem de por a fonte de onde tirou a informação.
É uma aprendizagem. Aprende-se a fazer, fazendo.
O aluno que entrava na
biblioteca da escola há 17 anos era diferente do de hoje?
Há 17 anos, já havia computador. Mas hoje as escolas estão
muito à frente. Podemos ter a infelicidade, neste momento em que temos
problemas financeiros, de ter mais dificuldade em substituir materiais, mas
penso que não se pode recuar na questão do patamar das novas literacias e dos
equipamentos associados, senão é dificílimo recuperar. De facto, chegámos a um
patamar que não podemos perder sob o risco de retomarmos indicadores de
analfabetismo.
Com o desinvestimento
que tem vindo a ser feito, esse risco existe?
Há um risco. A idade das trevas existe! A nossa escola, com
todos os defeitos e virtudes, tem tido um papel importantíssimo na mobilidade
social. E agora que esta questão está dificultada por razões do desemprego e
dificuldades vividas pela classe média, por maioria de razão deve apostar-se na
educação porque é o único capital que as pessoas têm para a mobilidade social.
Por isso a RBE tem de sobreviver com êxito. As dificuldades justificam uma
política pública de leitura, nas escolas e fora delas.
Com a sua saída, o que
é que ficou por fazer?
Temos objetivos que ainda não foram concretizados. Primeiro,
cobrir todo o universo das escolas — faltam as do 1.º ciclo. Segundo, não
comprometer os recursos humanos sem os quais não há bibliotecas.
Atualmente, há
agrupamentos que tinham três e agora têm apenas um professor bibliotecário.
Houve uma redução, mas faço os possíveis para compreender o
país em que estou e num país em que bens como a saúde e a educação levam
cortes, as bibliotecas escolares não podiam ficar intocáveis.
O que fizemos foi lutar para que o programa não fosse posto
em causa e isso implicou uma diminuição dos recursos. Procurámos readaptar-nos
às novas circunstâncias. Mas estamos a trabalhar no fio da navalha e achamos
que chegámos a um patamar em que não podemos atacar os recursos humanos porque
uma casa sem gestor não pode funcionar e manter um nível de coleção em todos os
suportes que alimentem o próprio edifício. Uma rede sem equipamentos e sem
pessoas com formação não existe.
Que outros objetivos
faltam concretizar?
Ter uma coleção. É preciso ter a consciência que para ter
pessoas letradas é preciso ter instrumentos e usá-los.
A biblioteca escolar é
um espaço onde os alunos vão nas horas vagas ou há um trabalho com o resto da
escola?
Existe determinado tipo de matérias curriculares que podem
ser feitas entre a sala de aula e a biblioteca. A escola é uma rede de
informação. Quando nascemos era essencialmente para levar a literatura aos
alunos. Hoje não temos medo que a biblioteca seja instrumental e construtora do
sucesso académico dos alunos. E esta é uma mudança muito importante em todos,
nomeadamente nos professores.
Mas a biblioteca também é o local para onde os professores
mandam os alunos mais indisciplinados, quando se portam mal na sala de aula.
É para os que se portam mal e que vão ajudar a professora
bibliotecária. Mas é também um lugar de acolhimento para os que têm de estar
mais horas na escola, para os que gostam de estudar, para os que não gostam e
vão à procura de ajuda. A biblioteca é uma forma de inclusão social.
Os resultados dos
alunos portugueses nos testes da OCDE, que foram elogiados por esta
organização, também se devem à RBE?
Eu não quero dizer que não! Eu penso que qualquer análise
mais cuidada verifica que são muitos os elementos que contribuem. Pois se em
todo o mundo contribuiu não é no nosso país que deixa de o fazer. A biblioteca
é o local onde os alunos podem ir e consultar, fazer trabalhos, ouvir música,
ler, ver filmes. Como é que isso não contribui para o seu sucesso? O mesmo se
pode dizer do Plano Nacional de Leitura (PNL) ou do Plano Tecnológico. Claro
que foi muito importante para mudar o rosto da escola.
A RBE foi ofuscada com
a criação do PNL?
As bibliotecas escolares faziam o que o PNL veio fazer, mas
este foi criado como uma imagem de marca, o "Ler +", trouxe uma
valorização social à leitura e é natural que as pessoas conheçam mais do que a
rede. A RBE é o tosco, é a infraestrutura como é o refeitório ou o ginásio,
está lá e depois vem a superestrutura que é o PNL. Claro que vem com um lado
mais festivo, como a cigarra [da fábula A cigarra e a formiga]. A tristeza é se
não houver a formiga, que é a biblioteca. O PNL foi ótimo para as bibliotecas e
este não era nada sem nós porque além das infraestruturas existem também os
nossos recursos humanos que fazem tudo por ele.
Com a sua saída, a RBE
corre o risco de acabar?
Não acredito que alguém faça essa maldade ao país!
Mas com uma aposta
maior na autonomia das escolas, as bibliotecas não passarão a ser da
responsabilidade daquelas e já não precisarão de pertencer a uma rede?
O sucesso da RBE não se deve apenas ao interesse dos
ministros, mas também às direções das escolas, se estas não acarinharem as
bibliotecas, aquelas morrem. A biblioteca é da escola e tem de ser vivida à
medida das necessidades de cada comunidade escolar. Portanto, já há autonomia.
Mas também há um pacote de orientações que, para já, ainda precisa de ser
central.
Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/as-dificuldades-justificam-uma-politica-publica-de-leitura-nas-escolas-e-fora-delas-1620174
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca
Reino Unido
Doentes depressivos
"aviam" receitas na biblioteca
No Reino Unido, a prescrição de
livros em vez de fármacos para tratar a depressão está a tornar-se cada vez
mais comum. Além de "low-cost", o método, já conhecido como
"Biblioterapia", não acarreta efeitos secundários
Há uma nova terapia para
depressão no Reino Unido e, a melhor parte, é que além de "low-cost"
não apresenta efeitos secundários. É chamada de "Biblioterapia" e faz
jus ao nome: em vez de fármacos, são prescritos livros. Isso mesmo: livros. É
que, de acordo com alguns especialistas, além de fomentar a empatia, a leitura
pode ajudar os pacientes a superar as suas fragilidades emocionais.
O método, chamado de "Books on
Prescription", começou a ser utilizado oficialmente em Junho, pelo
Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), e foi agora divulgado por Leah
Price, investigadora e professora da Universidade de Harvard, no jornal "The Boston Globe". "Se o psicólogo ou psiquiatra
diagnostica o paciente com depressão leve ou moderada, uma das opções é
passar-lhe uma receita com um dos livros
aconselhados", explica a investigadora.
E sendo uma prescrição —
e não apenas uma recomendação — há que seguir as indicações do médico
rigorosamente, depois de "aviar" a receita na biblioteca. Até porque
não existem efeitos secundários: "Ao contrário dos fármacos, ler um livro
não acarreta efeitos secundários como o ganho de peso, a diminuição do desejo
sexual ou as náuseas", sublinha Price.
100 mil requisições em
três meses
Os livros são
"seleccionados com base no conteúdo e no âmbito de programas de leitura
desenhados para facilitar a recuperação de pacientes que sofram de doenças
mentais ou distúrbios emocionais" e esta "parece ser uma solução
vantajosa" — e "low-cost", já que os livros acabam por sair mais
baratos do que os fármacos, ou até a custo zero, no caso das requisições.
"Ler melhora a saúde
mental e é difícil pensar na existência de malefícios quando se fala de um
programa como este", defende a investigadora. Por isso mesmo, tem cativado
cada vez mais adeptos. Ainda que não existam, para já, números oficiais sobre a
sua verdadeira eficácia, a investigadora adianta que, só nos primeiros três
meses do programa, foram feitas mais de 100 mil requisições dos livros de
auto-ajuda recomendados.
Esta, porém, não é a primeira
vez que o Serviço Nacional de Saúde britânico aposta neste tipo de programas,
numa forma de reconhecimento da importância dos livros. Uma outra iniciativa,
denominada "The
Reader Organisation", por exemplo, reúne pessoas desempregadas,
reclusos, idosos ou apenas solitários para que, todos juntos, leiam poemas e
livros de ficção em voz alta.
A "Biblioterapia"
foi desenvolvia com base numa investigação do psiquiatra Neil Frude, em 2003,
que concluía precisamente que os livros tinham potencial para se assumir como
substitutos dos anti-depressivos. Ao acompanhar o percurso dos seus pacientes,
Frude rapidamente percebeu que estes compensavam a frustração da espera pelos
primeiros efeitos dos fármacos — que podia durar anos — com a leitura, como
forma de entretenimento.
Fonte: http://p3.publico.pt/cultura/livros/10404/doentes-depressivos-quotaviamquot-receitas-na-biblioteca
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
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