domingo, 2 de fevereiro de 2014

Agrupamento Guilherme Correia de Carvalho - Livro do mês: fevereiro


Este conto esconde outra grande história. A história de Quentin Bell e do seu irmão, os sobrinhos de Virgínia Woolf e do jornal que faziam todos os dias para a família, quando Quentin tinha doze ou treze anos. Um jornal que incluía ilustrações, reportagens, entrevistas e uma enorme quantidade de artigos, quase como um verdadeiro jornal. Anos mais tarde, Quentin descreveria as visitas da sua tia Virgínia como «uma cálida brisa vinda de sudoeste, que nos enchia de uma espécie de espantosa energia». Naturalmente, como era escritora, as crianças pediram-lhe uma colaboração para o seu jornal. O resultado foi A Viúva e o Papagaio, um conto infantil sobre o amor aos animais, que a sua tia fez especialmente para esta ocasião. As crianças atiraram-se a esta história de enredo surpreendente. Muito tempo mais tarde, Quentin editou o livro com ilustrações do seu filho Julian. Hoje, o conto é um clássico e a tia de Quentin, aquela mulher que entrava em sua casa como uma cálida brisa de sudoeste, é considerada uma das maiores escritoras de todos os tempos, e a sua obra continua a ser lida e admirada em todo o mundo.
 
Escritora inglesa nascida a 25 de janeiro de 1882, no seio de uma família da alta sociedade londrina,
e falecida a 28 de março de 1941. O pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. Virgínia Stephen, nome de solteira, passou a infância numa mansão londrina com os três irmãos e tratada por sete criados, convivendo com personalidades como Henry James e Thomas Hardy. Virgínia tinha 13 anos quando a mãe morreu e 22 quando chegou a vez do pai falecer. Os quatro irmãos foram então viver para Bloomsbury, um bairro londrino da classe média-alta. A irmã mais velha, Vanessa, de 25 anos, tomou conta dos restantes três.

Em sua casa foi formado o Grupo de Bloomsbury, onde se reuniam regularmente personalidades como os poetas T. S. Elliot e Clive Bell, o escritor E.M. Forster entre outros artistas e intelectuais. Os quatro irmãos, entretanto, viajaram pela Grécia e Turquia, mas pouco depois do regresso morreu Tholby, em novembro de 1906. Virgínia sofreu a primeira de muitas grandes depressões. Casou em 1912 com o crítico literário Leonard Woolf, que viria a ser o seu companheiro de toda a vida.
The Voyage Out, de 1915, marca o início da sua carreira de romancista, mas só dez anos depois, com Mrs Dalloway, considerado o seu primeiro grande romance modernista, chegou o reconhecimento como escritora reputada. Orlando, obra de 1928, confirmou as qualidades de Virgínia Woolf. Esta obra tem um protagonista andrógino, inspirado na sua amiga Vita Sackville-West, com quem manteve uma longa relação íntima. Após obras como A Room of One's Own (Um Quarto Que Seja Seu), onde defende a independência das mulheres, The Waves (As Ondas) e The Years (Os Anos), em 1938 lançou um romance polémico, Three Guineas (Os Três Guinéus), na sequência da morte de um sobrinho na Guerra Civil espanhola. Neste livro, Virgínia Woolf defende que a guerra é a expressão do instinto sexual masculino. A 28 de março de 1941, pouco depois de ter lançado Between the Acts, Virginia Woolf suicidou-se, atirando-se a um rio com os bolsos cheios de pedras. Foi a segunda tentativa em poucos dias, interrompendo assim uma carreira marcada pela obtenção de diversos prémios literários, dos quais, contudo, só aceitou um, o Fémina, de França.
Paralelamente à atividade de escritora, Virgínia, em conjunto com o marido, fundou e manteve uma editora, destinada a publicar textos experimentais, textos de amigos e traduções de russo. Intitulada Hobart Press, a editora funcionava em moldes caseiros, depois de em 1917 Leonard ter oferecido à esposa uma pequena tipografia.
 
In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011.
 
Publicado em 1940, Bichos é o primeiro livro de contos de Miguel Torga, um dos mais originais da literatura portuguesa no género, de tal modo que se afirmou como o maior êxito literário do autor e como um dos clássicos da nossa literatura.
Esta obra é um testemunho singular da união natural entre homens e bichos - animais com um sentir humano que se igualam ao homem na mesma luta pela sobrevivência, e seres humanos que se transfiguram em animais. Ao mesmo tempo, é um retrato fiel do rude viver transmontano e da fusão entre homem e terra.
O cão Nero, o galo Tenório, o Morgado, o Ladino, o Ramiro e a Madalena reportam-nos a uma vida em total comunhão com a natureza, com todas as alegrias e agruras que isso implica.
 
 
Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, autor de uma produção literária vasta e variada, largamente reconhecida. Nasceu em S. Martinho de Anta em 1907. Depois de uma experiência de emigração no Brasil durante a adolescência, cursou Medicina em Coimbra, onde passou a viver e onde veio a falecer em 1995. Foi poeta presencista numa primeira fase; a sua obra abordou temas bucólicos, a angústia da morte, a revolta, temas sociais como a justiça e a liberdade, o amor, e deixou transparecer uma aliança íntima e permanente entre o homem e a terra. Estreou-se com Ansiedades, destacando-se no domínio da poesia com Orfeu Rebelde, Cântico do Homem, bem como através de muitos poemas dispersos pelos dezasseis volumes do seu Diário; na obra de ficção distinguimos A Criação do Mundo, Bichos, Novos Contos da Montanha, entre outros. O Diário ocupa um lugar de grande relevo na sua obra. Também como escritor dramático, publicou três obras intituladas Terra Firme, Mar e O Paraíso. Recebeu o Prémio Camões em 1989 e o prémio Vida Literária (atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores) em 1992.
 

 
 
 
 
 

 
 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ

"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito impercetível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.
Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Oferece-lhe outra chávena de café com leite.
Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.
Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto na saga Crepúsculo.
Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.
Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."


(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)
Retirado de http://ojardimassombrado.blogspot.pt/2011/04/namora-uma-rapariga-que-le.html

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

POR QUE AS BIBLIOTECAS ESTÃO RESSURGINDO DAS CINZAS


Os políticos já perceberam que é melhor para eles gastar dinheiro com bibliotecas, em vez de museus e galerias de arte

Adoradores das bibliotecas, entre os quais eu me incluo, não precisam estar muito cheios de tristeza e melancolia. Enquanto cortes e fechamentos estão afetando os serviços das bibliotecas, também é verdade que a última década assistiu a uma reinvenção da biblioteca pública no Reino Unido e em todo o mundo. A Biblioteca de Birmingham reabriu a um custo de 186 milhões de libras, tornando-se a maior biblioteca pública na Europa. Ela espera atrair 10 mil visitantes por dia. A magnífica biblioteca Mitchell de Glasgow, que anteriormente detinha o recorde como a maior biblioteca de referência pública na Europa, foi recentemente remodelada para um enorme efeito. Desde 2000, novos edifícios de bibliotecas abriram em Bournemouth, Brighton, Canada Water, Cardiff, Clapham, Dagenham, Glasgow, Liverpool, Newcastle, Norwich, Peckham, Whitechapel e em outros lugares, todas registando números altíssimos de usuários.

Por que as bibliotecas estão de volta à agenda urbana? Um número crescente de pessoas está agora envolvido em alguma forma de educação continuada ou ensino superior, e precisam de espaço de estudo e acesso à internet, o que muitos não conseguem encontrar em casa. A ascensão de moradores que vivem sozinhos nos centros urbanos – em algumas capitais europeias se aproxima a 50 % dos domicílios – significa que as bibliotecas cada vez mais atuam como um ponto de encontro ou uma casa fora de casa, como servem para migrantes, refugiados e até mesmo turistas. A ideia da biblioteca como “a sala de estar da cidade” foi promulgada pela primeira vez nos projetos de bibliotecas escandinavas da década 1970, com os arquitetos respondendo aos desejos dos usuários para permanecerem mais tempo no ambiente, tomar um café e desfrutar de sessões de contação de histórias, concertos à hora do almoço ou participar de leituras de livros em grupos. Visitando a biblioteca Örnsköldsvik no norte da Suécia, perto do Círculo Polar Ártico, notei que os usuários trouxeram seus chinelos e um almoço embalado. Esta nova compreensão do espaço da biblioteca é formalizada, por exemplo, na biblioteca Rem Koolhaas de Seattle, onde três dos cinco andares são designados como Sala de Leitura, Sala de Estar e Câmara de Mistura.

O entusiasmo mundial revivido para bibliotecas – do qual Seattle é talvez a mais ambiciosa – teve origem na América do Norte na década de 1990. Tendo supervisionado o fracasso financeiro de museus e galerias icônicas – construídos ostensivamente para colocar as cidades no mapa – os políticos perceberam que recebiam mais atenção quando gastavam o dinheiro em uma biblioteca estado-da-arte. Quando a biblioteca de Nashville foi inaugurada em 2001, inscrita em cima da porta estava a máxima: “Uma cidade com uma grande biblioteca é uma grande cidade.” O historiador Shannon Mattern recentemente dedicou um livro inteiro a representar a ascensão para a proeminência da nova biblioteca urbana na vida cívica americana.

Na Europa, houve um desencanto semelhante com o “Efeito Bilbao”, em homenagem ao sucesso singular do projeto de Frank Gehry para um museu e galeria de arte na cidade. Por um tempo, muitos planejadores acreditavam que somente edifícios de museu icônicos projetados por arquitetos-celebridade poderiam resgatar cidades fracassadas do esquecimento. O amargo livro de Deyan Sudjic “O Complexo de edifícios” discrimina a retórica exagerada e custos crescentes de muitos desses projetos aspirantes ao redor do mundo, juntamente com a sua morte precoce. Na Grã-Bretanha, a mais grandiosa delas, o Millennium Dome, absorveu quase um bilhão de libras de dinheiro público – destinados a fornecer uma vitrine permanente para a ciência e as artes – apenas para ser rapidamente alugado como um local para eventos corporativos e pop. O Parque Olímpico e suas instalações pode muito bem seguir o mesmo caminho.

É quase impossível para as bibliotecas públicas falhar desta maneira. Elas são livres para usar, e, depois de um século e meio de experiência, se entremeou no tecido da vida cotidiana. Em algumas cidades britânicas, quase metade da população possui um cartão de biblioteca, mesmo que ele seja usado com pouca frequência. Nós fazemos piadas sobre os bibliotecários tímidos escondidos atrás das pilhas de livros ou na sala de estoque, mas as pessoas confiam neles como confiam em poucos outros. Os bibliotecários podem agonizar sobre questões de gosto, decência e da adequação dos materiais que estocam, em comparação com a neutralidade moral do mercado comercial, mas nós os admiramos por isso. Mais importante ainda, as bibliotecas são vistas como pertencentes a todos por direito, comparadas à teatros com financiamento público, galerias de arte, museus ou salas de concerto.

A adaptabilidade da biblioteca para responder às novas demandas se reflete no design contemporâneo. O balcão de informações da biblioteca em grande parte desapareceu. Máquinas de auto-atendimento liberam funcionários para passar mais tempo com os usuários da biblioteca, organizar sessões de contação de histórias, de autógrafos e círculos de leitura (havia mais de 100.000 membros de grupos de leitura em bibliotecas na Inglaterra e País de Gales na última contagem). Foyers tendem a ser abertos com poltronas para leitura, e serviços de empréstimo e de referência estão agora misturados. Nem todo mundo usa a internet para pesquisar um ensaio de alto nível de Shakespeare ou acompanhar os eventos na Síria. Outros estarão à procura de um emprego ou verificando sites de namoro, ou podem ter caído no sono em uma réplica da cadeira ovo brilhante de Arne Jacobsen sobre uma cópia do Jornal dos Sports. E daí? Todos os tipos de pessoas descobrem um senso de santuário nas bibliotecas, que não encontram em nenhum outro lugar da cidade. A biblioteca pública é o símbolo supremo da “grande sociedade”.

“Os três documentos mais importantes que uma sociedade livre dá”, o romancista americano EL Doctorow escreveu uma vez, “é uma certidão de nascimento, passaporte e um cartão de biblioteca”. Os jovens estão muito em evidência nas novas bibliotecas – uma mudança cultural inesperada e bem vinda – sem dúvida, atraídos por uma arquitetura arejada brilhante que reflete a cultura do design vivo que eles assimilam em suas vidas. Eles também parecem à vontade em um lugar que os trata com um respeito não concedido em outros locais na vida pública.

Nem todo mundo aprova o novo ethos da biblioteca, resumido como sendo “da coleção para a conexão”. Alguns permanecem horrorizados com o avanço da revolução tecnológica, que não só está a remodelar o mundo, mas reconfigurando a biblioteca pública junto com ela. Se os pioneiros da biblioteca do século 19 reconheceriam estes edifícios do século 21 pode ser questionável – mas uma vez lá dentro eles se sentem em casa. Ainda hoje, o mundo dentro da biblioteca mudou menos do que o mundo lá fora.

Texto de Ken Worpole, publicado no The Guardian

Fonte: http://bsf.org.br/2014/01/07/biblioteca-publica-investimento-prefeito-cidade/

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

“As dificuldades justificam uma política pública de leitura, nas escolas e fora delas”

Entrevista a Teresa Calçada, coordenadora do gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares.


À frente da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) desde 1996, Teresa Calçada despede-se com a certeza que o programa vai continuar, apesar das dificuldades.
Não é exagero dizer que Teresa Calçada é a mãe da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE). Técnica do Instituto Português do Livro desde 1982, esteve na génese da criação da Rede de Bibliotecas Municipais e, anos mais tarde, fez parte do grupo que pensou as bibliotecas nas escolas, acabando por assumir a sua direção. No final de 2013, depois de 17 anos à frente da RBE, pediu a reforma. "Não sei bem porquê", confessa. Contudo, tem a certeza que o trabalho começado não pode voltar atrás. Para já, vai fazer voluntariado com a sua amiga Isabel Alçada, autora e ex-ministra da Educação, na associação Voluntários de Leitura. Vão às escolas ler com os mais pequenos.
O Ministério da Educação e Ciência já fez saber que "está a analisar a substituição de Teresa Calçada que deixa o cargo por aposentação".
Atualmente, há bibliotecas em todos os estabelecimentos de ensino?
Todos os agrupamentos têm biblioteca. O sistema responde a todos os alunos que estão na escola. O que acontece é que às vezes há escolas do 1.º ciclo que não têm, mas têm serviço de biblioteca. Ou seja, a sede de agrupamento obriga-se a ter um serviço de itinerância.
Não devia haver uma biblioteca em cada escola?
Não. Desde o início do programa que está previsto nos objetivos que todas as escolas com uma dimensão de 100 ou mais alunos tenham biblioteca. Mas todos os alunos devem ter [acesso a] biblioteca ou serviço de biblioteca. Hoje, isso está assegurado.
A RBE tem vindo a sofrer cortes no seu orçamento. Houve anos em que o investimento ultrapassou os quatro milhões de euros, mas em 2013 tinha apenas 625 mil euros. Como é este ano?
O orçamento deste ano é equivalente ao do ano passado, que caiu. Caiu porque o sistema não precisa do que já precisou, houve picos e velocidade cruzeiro. Por outro lado, caiu porque houve quebra na despesa do Orçamento do Estado com a situação financeira que se vive na Europa e em Portugal, em particular.
Sentiu diferenças no tratamento da RBE entre governos PS e PSD?
Muito do que representa ter hoje esta rede deve-se a todos os ministros, desde o professor Marçal Grilo, que foi o precursor, passando por Guilherme d’Oliveira Martins, Augusto Santos Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada e agora Nuno Crato. O programa mereceu sempre o respeito dos governantes.
Esqueceu-se de alguns ministros, o professor David Justino e Carmo Seabra, ambos do PSD.
Todos! O programa mereceu o respeito de todos, para além da questão dos partidos. Quando fizemos 12 anos houve um fórum em Lisboa, vieram dois mil professores bibliotecários e na primeira fila coabitavam os vários ex-ministros da Educação, de partidos diferentes.
O programa teve a sorte de trabalhar com pessoas interessantes que compreenderam filosófica e socialmente o papel das bibliotecas. No nosso país, onde os níveis de literacia são baixos, os políticos compreendem que as bibliotecas são instrumentais para as competências leitoras.
Essas competências têm vindo a mudar? Até que ponto a biblioteca escolar deixa de fazer sentido com as novas tecnologias, onde tudo se pode ler e procurar num Tablet?
Hoje há multiliteracias que são mais completas. O que as bibliotecas têm é a obrigação de ajudar à capacitação leitora. Não há resultados a Matemática ou a qualquer outra disciplina curricular que não passe pelas competências leitoras.
As bibliotecas têm o papel de valorizar a curiosidade e a informação mas também treinam as competências para a leitura e para o uso das ferramentas todas. Aos professores, cabe-nos ajudar à leitura e à descodificação deste complexo mundo multimodal.
Qual é o maior desafio dos professores bibliotecários?
O grande desafio é desmistificar. Ajudar os alunos a perceber que, não é porque está na Internet que a informação é verdadeira. É preciso ajudá-los a distinguir o verdadeiro do falso, a saber manipular a informação, a ter um comportamento crítico.
Ninguém nasce leitor, aprendemos a ser no papel, agora temos de aprender naquilo que é a lógica dos gadgets e isso, é para nós, um dos objetivos das bibliotecas.
Porquê?
Porque a função da biblioteca é fazer leitores e isso é difícil porque não se é naturalmente leitor. É cada vez mais difícil fazer leitores porque o tempo é mais rápido e, paralelamente, o tempo da leitura é lento. É um paradoxo, o qual somos convocados a contrariar. A leitura vindo a complexificar-se e hoje captar a atenção, fazer modos de relacionamento — porque estamos a falar de tecnologia e de comunicação —, tudo isso é difícil. Temos dificuldade em comunicar com os alunos se não usarmos as tecnologias, mas não é um complemento, e sim um instrumento, e isso é uma dificuldade para muitos professores.
Um aluno que entra hoje na biblioteca não vai à procura de uma enciclopédia mas de um computador?
Naturalmente, como qualquer um de nós. É um instrumento que existe onde está tudo. Agora é preciso saber validar a informação que se recebe.
Isso significa que os recheios das bibliotecas mudaram? Há menos livros?
A RBE tem uma política de abate dos livros, o que é complicado. Temos feito abate de manuais escolares, por exemplo. Se houver muita falta de espaço, claro que tem de se fazer. Temos bibliotecas de escola que são maravilhosas, como as dos grandes liceus e aí não há razão para tirar os livros. Mas de há dez anos para cá que deixámos de comprar enciclopédias para as novas bibliotecas. Hoje há uma coleção digital e se é menos rica é porque a produção em português ainda é frágil, mas tende a aumentar.
Mas voltemos à simulação da entrada de um aluno numa biblioteca. Para onde é que se dirige?
Claro que a sua primeira vontade é usar os gadgets. Depois chegam aos livros quando orientados. Por exemplo, quando o professor bibliotecário lhe mostra que demora mais tempo no computador do que no livro. Depois, o gadget tem a perversidade da cópia e o professor bibliotecário explica que não pode copiar, que tem de por a fonte de onde tirou a informação. É uma aprendizagem. Aprende-se a fazer, fazendo.
O aluno que entrava na biblioteca da escola há 17 anos era diferente do de hoje?
Há 17 anos, já havia computador. Mas hoje as escolas estão muito à frente. Podemos ter a infelicidade, neste momento em que temos problemas financeiros, de ter mais dificuldade em substituir materiais, mas penso que não se pode recuar na questão do patamar das novas literacias e dos equipamentos associados, senão é dificílimo recuperar. De facto, chegámos a um patamar que não podemos perder sob o risco de retomarmos indicadores de analfabetismo.
Com o desinvestimento que tem vindo a ser feito, esse risco existe?
Há um risco. A idade das trevas existe! A nossa escola, com todos os defeitos e virtudes, tem tido um papel importantíssimo na mobilidade social. E agora que esta questão está dificultada por razões do desemprego e dificuldades vividas pela classe média, por maioria de razão deve apostar-se na educação porque é o único capital que as pessoas têm para a mobilidade social. Por isso a RBE tem de sobreviver com êxito. As dificuldades justificam uma política pública de leitura, nas escolas e fora delas.
Com a sua saída, o que é que ficou por fazer?
Temos objetivos que ainda não foram concretizados. Primeiro, cobrir todo o universo das escolas — faltam as do 1.º ciclo. Segundo, não comprometer os recursos humanos sem os quais não há bibliotecas.
Atualmente, há agrupamentos que tinham três e agora têm apenas um professor bibliotecário.
Houve uma redução, mas faço os possíveis para compreender o país em que estou e num país em que bens como a saúde e a educação levam cortes, as bibliotecas escolares não podiam ficar intocáveis.
O que fizemos foi lutar para que o programa não fosse posto em causa e isso implicou uma diminuição dos recursos. Procurámos readaptar-nos às novas circunstâncias. Mas estamos a trabalhar no fio da navalha e achamos que chegámos a um patamar em que não podemos atacar os recursos humanos porque uma casa sem gestor não pode funcionar e manter um nível de coleção em todos os suportes que alimentem o próprio edifício. Uma rede sem equipamentos e sem pessoas com formação não existe.
Que outros objetivos faltam concretizar?
Ter uma coleção. É preciso ter a consciência que para ter pessoas letradas é preciso ter instrumentos e usá-los.
A biblioteca escolar é um espaço onde os alunos vão nas horas vagas ou há um trabalho com o resto da escola?
Existe determinado tipo de matérias curriculares que podem ser feitas entre a sala de aula e a biblioteca. A escola é uma rede de informação. Quando nascemos era essencialmente para levar a literatura aos alunos. Hoje não temos medo que a biblioteca seja instrumental e construtora do sucesso académico dos alunos. E esta é uma mudança muito importante em todos, nomeadamente nos professores.
Mas a biblioteca também é o local para onde os professores mandam os alunos mais indisciplinados, quando se portam mal na sala de aula.
É para os que se portam mal e que vão ajudar a professora bibliotecária. Mas é também um lugar de acolhimento para os que têm de estar mais horas na escola, para os que gostam de estudar, para os que não gostam e vão à procura de ajuda. A biblioteca é uma forma de inclusão social.
Os resultados dos alunos portugueses nos testes da OCDE, que foram elogiados por esta organização, também se devem à RBE?
Eu não quero dizer que não! Eu penso que qualquer análise mais cuidada verifica que são muitos os elementos que contribuem. Pois se em todo o mundo contribuiu não é no nosso país que deixa de o fazer. A biblioteca é o local onde os alunos podem ir e consultar, fazer trabalhos, ouvir música, ler, ver filmes. Como é que isso não contribui para o seu sucesso? O mesmo se pode dizer do Plano Nacional de Leitura (PNL) ou do Plano Tecnológico. Claro que foi muito importante para mudar o rosto da escola.
A RBE foi ofuscada com a criação do PNL?
As bibliotecas escolares faziam o que o PNL veio fazer, mas este foi criado como uma imagem de marca, o "Ler +", trouxe uma valorização social à leitura e é natural que as pessoas conheçam mais do que a rede. A RBE é o tosco, é a infraestrutura como é o refeitório ou o ginásio, está lá e depois vem a superestrutura que é o PNL. Claro que vem com um lado mais festivo, como a cigarra [da fábula A cigarra e a formiga]. A tristeza é se não houver a formiga, que é a biblioteca. O PNL foi ótimo para as bibliotecas e este não era nada sem nós porque além das infraestruturas existem também os nossos recursos humanos que fazem tudo por ele.
Com a sua saída, a RBE corre o risco de acabar?
Não acredito que alguém faça essa maldade ao país!
Mas com uma aposta maior na autonomia das escolas, as bibliotecas não passarão a ser da responsabilidade daquelas e já não precisarão de pertencer a uma rede?
O sucesso da RBE não se deve apenas ao interesse dos ministros, mas também às direções das escolas, se estas não acarinharem as bibliotecas, aquelas morrem. A biblioteca é da escola e tem de ser vivida à medida das necessidades de cada comunidade escolar. Portanto, já há autonomia. Mas também há um pacote de orientações que, para já, ainda precisa de ser central.

Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/as-dificuldades-justificam-uma-politica-publica-de-leitura-nas-escolas-e-fora-delas-1620174

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca


Reino Unido

Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca

No Reino Unido, a prescrição de livros em vez de fármacos para tratar a depressão está a tornar-se cada vez mais comum. Além de "low-cost", o método, já conhecido como "Biblioterapia", não acarreta efeitos secundários

Há uma nova terapia para depressão no Reino Unido e, a melhor parte, é que além de "low-cost" não apresenta efeitos secundários. É chamada de "Biblioterapia" e faz jus ao nome: em vez de fármacos, são prescritos livros. Isso mesmo: livros. É que, de acordo com alguns especialistas, além de fomentar a empatia, a leitura pode ajudar os pacientes a superar as suas fragilidades emocionais.

O método, chamado de "Books on Prescription", começou a ser utilizado oficialmente em Junho, pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), e foi agora divulgado por Leah Price, investigadora e professora da Universidade de Harvard, no jornal "The Boston Globe". "Se o psicólogo ou psiquiatra diagnostica o paciente com depressão leve ou moderada, uma das opções é passar-lhe uma receita com um dos livros aconselhados", explica a investigadora.

 E sendo uma prescrição — e não apenas uma recomendação — há que seguir as indicações do médico rigorosamente, depois de "aviar" a receita na biblioteca. Até porque não existem efeitos secundários: "Ao contrário dos fármacos, ler um livro não acarreta efeitos secundários como o ganho de peso, a diminuição do desejo sexual ou as náuseas", sublinha Price.

100 mil requisições em três meses

Os livros são "seleccionados com base no conteúdo e no âmbito de programas de leitura desenhados para facilitar a recuperação de pacientes que sofram de doenças mentais ou distúrbios emocionais" e esta "parece ser uma solução vantajosa" — e "low-cost", já que os livros acabam por sair mais baratos do que os fármacos, ou até a custo zero, no caso das requisições.

"Ler melhora a saúde mental e é difícil pensar na existência de malefícios quando se fala de um programa como este", defende a investigadora. Por isso mesmo, tem cativado cada vez mais adeptos. Ainda que não existam, para já, números oficiais sobre a sua verdadeira eficácia, a investigadora adianta que, só nos primeiros três meses do programa, foram feitas mais de 100 mil requisições dos livros de auto-ajuda recomendados.

Esta, porém, não é a primeira vez que o Serviço Nacional de Saúde britânico aposta neste tipo de programas, numa forma de reconhecimento da importância dos livros. Uma outra iniciativa, denominada "The Reader Organisation", por exemplo, reúne pessoas desempregadas, reclusos, idosos ou apenas solitários para que, todos juntos, leiam poemas e livros de ficção em voz alta.

A "Biblioterapia" foi desenvolvia com base numa investigação do psiquiatra Neil Frude, em 2003, que concluía precisamente que os livros tinham potencial para se assumir como substitutos dos anti-depressivos. Ao acompanhar o percurso dos seus pacientes, Frude rapidamente percebeu que estes compensavam a frustração da espera pelos primeiros efeitos dos fármacos — que podia durar anos — com a leitura, como forma de entretenimento.

Fonte: http://p3.publico.pt/cultura/livros/10404/doentes-depressivos-quotaviamquot-receitas-na-biblioteca

domingo, 1 de dezembro de 2013

A semana da diferença

No Agrupamento de Escolas de Seia irá decorrer mais um evento importante, "A semana da diferença". Vamos todos participar. É claro que as Bibliotecas também estão envolvidas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

ALEXANDRA LUCAS COELHO VENCE PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA APE/DGLAB


Alexandra Lucas Coelho, com o romance E a noite roda, publicado pela Tinta da China, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE.

Os cinco títulos finalistas eram Jesus Cristo Bebia Cerveja de Afonso Cruz; E a Noite Roda de Alexandra Lucas Coelho; A Rapariga Sem Carne de Jaime Rocha; O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel de Mário de Carvalho e O Banquete de Patrícia Portela. A Associação Portuguesa de Escritores (APE) informou que o júri do Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012, constituído por José Correia Tavares, Ana Marques Gastão, Clara Rocha, Isabel Cristina Rodrigues, Luís Mourão e Manuel Gusmão, atribuiu por unanimidade o prémio ao romance da jornalista Alexandra Lucas Coelho, que se destacou entre os 80 livros publicados em 2012 admitidos a concurso.

O prémio tem o valor de 15 mil euros, financiados pela DGLAB.
 
 
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sábado, 23 de novembro de 2013

A intrépida Mrs. Lessing


A VISÃO entrevistou a escritora britânica, prémio Nobel da Literatura, que morreu domingo aos 94 anos, na sua casa, em Londres. Uma conversa que teve lugar em 2008, para agora recordar a "passionária, revolucionária e desbocada".



É a voz que se ouve primeiro, enfiada nos pulmões do edifício de tijolos amarelo-vermelho-desmaiado, em Hampstead, alinhado ao lado de uma dezena de prédios iguais, com janelas salientes e arbustos desordenados de flores. Uma voz arranhada pela velhice mas viva, tom de comando inequívoco. Franqueada a porta, sem tropeçar na caixa de reciclagem e nos everests de jornais, a cabeça delicada de Doris Lessing espreita do primeiro andar.

Aí está a sala de estar, descrita em todas as entrevistas: a luz refletida no espelho ornado de pequenas estatuetas, o conforto oriental dos sofás rasos ao chão, a explosão verde a denunciar o jardim. E a presença do papel: romances alinhados em colunas periclitantes, maços de jornais lidos, volumes sobre pintura. Da famosa gata temperamental, Yum-Yum, não há rasto.

Mas Lessing, 89 anos cumpridos a 22 de Outubro, diminuta e enrugada como uma sábia, mostrará o seu feitio felino, imprevisível, lúcido.

A romancista Margareth Atwood chamou-lhe "alma intrépida", "escritora excelente" que "teve uma vida muito interessante". É uma declaração branda.

A biografia de Lessing é um compêndio de história. Nasceu na antiga Pérsia, hoje Irão; cresceu entre uma quinta, na Rodésia, hoje Zimbabué, e a África do Sul, no meio de brancos enfiados no seu próprio mundo.

Abandonou a escola aos 15 anos, casou aos 19, teve dois filhos que, após o primeiro divórcio, só voltaria a ver na década de sessenta. Queria respirar. O segundo casamento, com um judeu alemão, comunista, que lhe deixou o apelido e um terceiro filho, também não durou. "Percebi que prefiro o luxo da solidão." Foi militante comunista, desencantou-se, foi ícone feminista por arrasto, diz ela. E recebeu o Nobel da literatura, 40 anos depois de o esperar.

A escrita aconteceu-lhe cedo. Mas só aos 30 anos é que apresentou o romance A Erva Canta, já em Londres, onde teve empregos de subsistência. Até jornalista foi, apesar da sua pouca consideração pela profissão. Os seus livros (traduzidos na Editorial Presença, Publicações Europa-América, Livros do Brasil ou Livros Cotovia) tanto versaram questões humanistas como ficções científicas, sem pejo em afrontar as convenções.

As Avós, último livro de contos traduzido para português, trata de "histórias verdadeiras, à exceção de uma. A história-título será um filme. Não me importo que façam uma adaptação cinematográfica, desde que quem tenha o dinheiro não fuja com ele!"

Diz-se que Alfred & Emily, agora editado, será o seu último livro. É verdade?

Sim, é verdade. Estou indisponível para escrever. Não é uma ausência de histórias para contar, é falta de energia. A minha fratura nas costas está a afetar-me, tenho um problema cardíaco... Não consigo subir as escadas até ao meu quarto, onde estão a máquina de escrever, os meus objetos.

E quando não tenho energia, não sou capaz de produzir trabalho. Escrevi muitos livros, mais de 50, não preciso de escrever mais.

Essa falta de energia relaciona-se com as suas "queixas" devidas à agenda sobrecarregada por causa da atribuição do Nobel?

Também tem a ver com as infindáveis entrevistas por causa do prémio, sim. Espero que o novo Nobel goste de falar, pois é isso que vai fazer, durante um ano inteiro! Eu teria gostado que este ano ganhasse o [Philip] Roth, gosto muito dele e ele ficou zangado por ter sido eu a ganhar em 2007! É um homem "torto".

O Prémio Nobel recompensou a sua audácia ou a sua resistência?

Não sei. Disseram-me que nunca ganharia, portanto deixei de pensar no assunto. Foi uma surpresa genuína quando aconteceu: eu sair do táxi e ter aquela multidão de jornalistas à espera, na minha porta, foi terrivelmente engraçado. O meu filho comprou cebolas francesas e colocou-as no meu pescoço, como um colar. Foi tudo divertido.

Já escrevera sobre os seus pais, nas memórias.

Porquê este Alfred & Emily? Os meus pais foram duramente afetados pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial.

Neste livro, quis fazer-lhes justiça: aboli esse conflito, tornei-o inexistente. Portanto, eles não têm mais desculpas. Tudo o que o meu pai sempre quis foi ser um lavrador, mas nunca teve dinheiro para cumprir esse sonho. O caso de minha mãe foi mais difícil de escrever, pois era muito talentosa, enérgica.

Assim, dei-lhe, simplesmente, o tipo de vida adequado aos seus muitos talentos, que era o que ela teria desejado, o destino de uma pioneira da educação que toca a vida das pessoas. E dei-lhe dinheiro, pois sem ele nada se consegue fazer. Criei-lhes uma nova vida e, no outro lado do livro, escrevi o que realmente lhes aconteceu. Mas este é um livro antiguerra, se se quiser.

Vê-o como um manifesto político ou ficção?

Devo dizer que tenho muita dificuldade em distinguir entre ambos. Escrevi este livro com compaixão, claro, mas é uma ficção sobre o que aconteceu aos meus pais em resultado da Primeira Guerra Mundial. Não é um discurso sobre o conflito, mas emerge ali a denúncia dos seus efeitos devastadores.

Já lhe ocorreu que poderia não ter havido uma revolução russa nem um império soviético? Que não existiria nenhum Hitler nem aconteceria outra Guerra Mundial?

Atravessou grande parte do século XX. O que aprendemos nós, afinal?

Não aprendemos nada! Temos estúpidos primeiros-ministros a começarem uma guerra no Iraque, no Afeganistão. Estamos no meio de uma gravíssima crise financeira, o que significa que as pessoas não realizarão os seus sonhos. São tempos assustadores, que, pelo medo, provocam reações assustadoras.

Na Europa, tivemos, recentemente, uma época fácil, tornámo-nos mimados, e pergunto-me se as pessoas estarão à altura da dureza que se adivinha. Esta não é uma geração que tenha conhecido qualquer dificuldade.

Falemos da geração inicial, a do livro A Fenda, onde defende que as mulheres são os seres originais e os homens uns "esguichos" simplórios. As nossas vidas não têm influência?

A maquilhagem genética faz-nos o que somos. Os homens têm o cromossoma Y, e por isso são como são. Acho que a vida não é tão importante como os genes.

A sua biografia tem sido rica em vivências políticas, intelectuais. Isso não a moldou?

Não, os genes são mais importantes. Nem tudo está escrito, claro. Há a experiência: vivi duas grandes guerras, durante a segunda estava casada com um refugiado alemão, para o livrar de um campo de concentração. Viver em Inglaterra tem sido para mim um tempo fácil, melhor.

África marcou a sua vida. Como olha agora para esse continente?

Está acabado. O Zimbabué está nas mãos de Mugabe. Não consigo imaginar como será recuperado, já que ele prejudicou tanto o país. A África do Sul está invadida de pobreza, de sida, de miséria. Tenho uma filha que vive na Cidade do Cabo. Quando vivia lá era muito crítica da dominação branca. Agora, olho para trás e vejo que fizemos estações de comboios, escritórios, havia água corrente e energia. Portanto, fizemos algumas coisas bem. Viajei muito, agora parei. Com 90 anos acho que tenho o direito de sentir a viagem como algo de difícil.

Depois de uma infância no colégio católico e quatro anos de militante no Partido Comunista, pode dizer-se que a sua ideologia é a liberdade?

Sim. Eu não era uma católica praticante, estava num convento católico onde se acreditava num Deus muito mau. Quanto aos anos que estive no Partido Comunista, eu não era uma verdadeira comunista.

A ideologia apelava a muitas pessoas, nessa altura, eram os efeitos da ressaca da guerra.

Mas essa ilusão não durou. Quando voltei a Inglaterra, fiquei em casa de uma mulher que sabia muito sobre o que se estava a passar no interior da União Soviética, e que me tirou as ilusões.

A educação católica deixou-lhe marcas?

Não, o episódio curou-me de Deus. O que acontecia era que os pais protestantes mandavam as filhas para o colégio católico, na condição de que não influenciassem a sua orientação espiritual. Tínhamos inveja da minoria das raparigas católicas, com o seu mundo de água benta e Virgem Maria e aqueles santos e catedrais. É claro que me apaixonei pela Virgem Maria. Lembro-me de ter ido a uma catedral e ter ficado em êxtase perante uma pequenina, insignificante, muito má estátua da Virgem Maria. Uma pessoa acredita em tudo! É claro que não durou, os meus pais alimentaram-me com propaganda anticatólica. Resolvi a questão: tornei-me ateia.

A ideologia comunista preencheu esse vazio?

Foi algo completamente diferente. Era ser-se comunista numa era diferente. Nesses dias, toda a gente lia. Agora, ninguém lê.

Quando conheci os comunistas, estes eram ou uma classe trabalhadora altamente politizada e culta que lia tudo, ou refugiados europeus cultos. Foi uma época maravilhosa: era a primeira vez que conhecia pessoas que liam tanto como eu. E que concordavam comigo, na minha forma de ver o mundo. É claro que esse estado de graça não poderia durar.

Voltando à liberdade, esta define os seus romances?

Não. Temos de definir a palavra, fazer perguntas. Somos livres? Eu acredito que não somos assim tão livres. Com tudo o que está a acontecer, acho que não podemos usar essa palavra tão facilmente. Sou nova para me lembrar da Grande Depressão, mas conheço os resultados. Os casamentos a quebrarem, as mulheres a ficarem desprotegidas, o mundo a colapsar como agora...

O feminismo está a perder terreno?

É o que parece estar a acontecer. Geneticamente, tem de ser assim, pois elas procuram um apoio forte para si e para os filhos. As mulheres têm de lutar mais pelo seu equilíbrio emocional, com aquelas hormonas todas. Não sei se é uma deceção. Mas, hoje, há liberdade de escolha: as mulheres podem escolher não casar. Essa é uma grande conquista. Recordo-me de ouvir uma velha feminista dizer-me, em jovenzinha, que há coisas pelas quais se deve lutar e uma é o pagamento igual por trabalho igual. Estamos ainda longe dessa realidade. Liberdade de oportunidades, isso temos. As mulheres são livres, até para ir para o exército, coisa que não me agrada.

Não vê esse acesso como um empowerment?

Talvez, se for um objetivo de vida. Mas não me sinto confortável com a ideia de raparigas na frente de batalha. Não gosto. Acho que ganhei o direito a defender posições pouco razoáveis, se assim o desejar.

No pós 11/9, há um baby boom. A maternidade tornou-se crucial para a identidade feminina, se é que alguma vez o deixou de ser...

Eu gosto de colocar as coisas de forma diferente. O que aprecio é que as mulheres possam declarar livremente "não, eu não quero ter filhos", algo impossível antes da democratização dos métodos contracetivos, como a pílula. Já pensou como deveria ser, no passado, quando uma mulher não possuía instinto maternal? Tinha de casar e criar uma prole. Um pesadelo. Poder escolher é uma maravilhosa conquista.

Deixou os seus filhos, ao fugir da "realidade branca de África". Sente-se pacificada com essa decisão, com a maternidade?

Na altura, o que eu deixei foi uma vida aborrecida, limitada, entediante. As crianças não foram a causa. Gostei bastante de estar grávida, desse sentimento. Mas imagino que esta seja uma das maiores tragédias do mundo: uma mulher que não tem instinto maternal e que tem de se conformar com esse destino imposto. Que pesadelo!

Ainda é entusiasmante ter um livro novo, comprado, lido?

Os meus livros estão todos disponíveis, até os que têm 50 anos continuam a ter leitores. É surpreendente. No ano passado, fui convidada para falar num clube do livro de jovens, mais jovens do que o romance escolhido, O Caderno Dourado que trata de coisas que nada têm a ver com a sua realidade.

Foi difícil falar-lhes da maneira como houve um estilhaçamento da esquerda em todo o mundo, como explodiu um sonho, bum! Uma definição algo infantil pelos padrões atuais. Mas eu tinha de dar a palestra. E foi uma noite divertida.

Estamos surdos e cegos ao sentido do devir histórico?

As pessoas não estão minimamente conscientes do peso da História. Em parte, porque a curiosidade desapareceu. Esta deve ser a geração menos curiosa de todas: não tem aquela sede, aquela inquietação que nos roía por dentro. A nossa paixão mais intensa era a enorme vontade de conhecer, de olhar para trás. Nós tínhamos de saber! Acredito que a falta de curiosidade é perigosa.

"Se não sabes o que o passado foi, vais repetir os mesmos erros." É uma fatalidade.

A sua geração não tinha tantas fontes de informação, a TV, a Internet...

Mas tínhamos imensos livros! A Internet, se não matou a curiosidade, mudou as mentes das pessoas, o seu espectro de atenção é mais curto. Talvez seja porque não acreditam ter qualquer tipo de influência. Nos jovens, há um sentimento de desesperança, de que tudo é demasiado grande para eles.

O que está errado: os grandes movimentos do século XX passaram por eles.

Gostaria de ser lembrada como alguém que se levantou por muitas causas?

Não por demasiadas coisas. Há causas pelas quais não me teria importado de lutar agora.

Mas fui uma das primeiras a levantarem-se na África do Sul. As pessoas esquecem-se mas, quando eu era jovem, o império britânico e o seu sistema profundamente racista dominavam. Os meus pais acreditavam que Deus colocou os britânicos na terra para controlar o mundo. As pessoas mais parecidas com eles que encontrei eram mineiros de ouro, em Vladivostok, que acreditavam na União Soviética com essa mesma fé cega.

É engraçado como é que isto foi possível.

E os americanos pensam assim agora...

A nova versão é a emergência da "cruzada" islâmica?

Os muçulmanos acreditam nessa visão.

E o que interessa perceber é que não se pode fazer nada com crentes, acreditem. Sei-o, porque fui educada por gente assim. Os argumentos não mudam nada, aprendi-o da maneira mais dura. As mentes das pessoas mudam por si próprias, não por as tentarmos convencer. Algo acontece. Apenas isso.

Sílvia Souto Cunha (entrevista publicada na VISÃO nº 825 de 25 de dezembro de 2008)