terça-feira, 19 de julho de 2016

Elegia de verão


O sol é grande. Ó coisas
Todas vãs, todas mudaves!
(Como esse “mudaves”
Que hoje é “mudáveis”
E já não rima com “aves”.)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d’água vermelhas de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.


Manuel Bandeira

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O Menino de Sua Mãe


No plano abandonado 
Que a morna brisa aquece, 
De balas trespassado 
— Duas, de lado a lado —, 
Jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue, 
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mãe lhe dera 
Um nome e o mantivera: 
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve. 
Dera-lha a mãe. Está inteira 
E boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada 
Ponta a roçar o solo, 
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lho a criada 
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece: 
«Que volte cedo, e bem!» 
(Malhas que o império tece!) 
Jaz morto, e apodrece, 
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa

Recado aos Amigos Distantes



Meus companheiros amados, 
não vos espero nem chamo: 
porque vou para outros lados. 
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto 
fazem melhor companhia. 
Mesmo com sol encoberto, 
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso, 
vou cortando meus atalhos. 
Por vosso amor é que penso 
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto, 
minha rebelde maneira. 
Para libertar-me tanto, 
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça, 
ides na minha lembrança, 
ides na minha cabeça, 
valeis a minha Esperança.


Cecília Meireles

domingo, 17 de julho de 2016

Poetas


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!


Florbela Espanca

Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, 16 de julho de 2016

Esperança



Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana

Felicidade


Pela flor pelo vento pelo fogo 
Pela estrela da noite tão límpida e serena 
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo 
Pelo amor sem ironia — por tudo 
Que atentamente esperamos 
Reconheci tua presença incerta 
Tua presença fantástica e liberta


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Alegria



Já ouço gritos ao longe 
Já diz a voz do amor 
A alegria do corpo 
O esquecimento da dor

Já os ventos recolheram 
Já o verão se nos oferece 
Quantos frutos quantas fontes 
Mais o sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos 
Já tenho colares de rosas 
E danço no meio da estrada 
As danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão 
Já se dão as voltas todas 
Ó certeza das certezas 
Ó alegria das bodas

José Saramago

Deito-me ao comprido na erva


Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.

O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Tu eras uma pequena folha



Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Quase nada



O amor 
é uma ave a tremer 
nas mãos de uma criança. 
Serve-se de palavras 
por ignorar 
que as manhãs mais limpas 
não têm voz.

Eugénio de Andrade